
Anos atrás, quando eu passei por uma febre de tricotagem, comecei um projeto de fazer quadrados coloridos pra mandar pra um lugar que esqueci. Era para virar uma manta eu acho, mas acabou virando um projeto abandonado, que se dissipou nas brumas da vida corrida e mundana.
Eu não tricoto mais porque agora eu cozinho obcecadamente. E o meu cozinhar ficou amplo e envolve ler livros, procurar receitas e idéias, além de preparar as comidas [e limpar—argh!], fotografar, editar, escrever a receita, tralálá.
Mas eu realmente não sinto falta de tricotar, porque nunca fui boa nisso, como nunca fui boa nas costuras. Costurei por muitos anos por falta de opção. As lojas não vendiam as roupas que eu queria vestir, no meu tamanho e do meu jeito. Então fui aos panos e às agulhas. Era também por economia, pois naquela época era mais barato comprar um paninho e fazer bonito. Hoje, com essa invasão de made in sweatshops, já não acho costurar nenhuma vantagem econômica.
Também lembro da onda de fazer bijoux com miçangas, que foi mais um exercicio de paciência, de ficar quieta, de atenção, além do da criatividade. Eu preciso ter um canal pra minha criatividade e então invento modas, mesmo não tendo nenhum talento. Abandonei as miçangas, as linhas, os panos, as lãs e as agulhas. Agora minha atenção está nos rangos, nos pratos, nos talheres e copos. Até quando? Não sei, veremos.
Estou trancada em casa, com as janelas e persianas fechadas, a/c central ligado porque o calorão começou. Já não me importo mais com isso, porque há coisas muito piores neste mundo. O calor poderia ser úmido e chamar insetos. O que não acontece. Nos orgulhamos e nos gabamos de ser apenas um monte de uvas passas cantarolantes e felizes.
Finalmente, depois de dois anos planejando e repensando estou conseguindo por em prática uma reformazinha que queria fazer no quintal. Tudo pra mim é assim, um custo. Mas justo hoje, nesse calorão dos infernios, o moço tá lá fora assentando tijolinhos. Fui dizer pra ele peloamorededeus beber bastante água. Mas não posso abrigar ninguém a não trabalhar.
Nos primórdios deste blog eu escrevia sobre uma gata, que virou gato numa história notável e mirabolante. Tantos anos se passaram, nem eu me dei conta de quantos e hoje já tenho que enfrentar o mais difícil, que é observar o envelhecimento desse animal.
Deu pra perceber que eu só vim aqui pra encher linguiça? Pois assunto não há. Tudo ficou tão absurdamente particular. Mas eu hei de recobrar, ou redescobrir, uma maneira legal de continuar registrando dias, semanas, meses e anos, sem comprometer ou exaltar a malta.