maio 12, 2008
Rain
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Fiquei muito impressionada com essa versão da história do confronto entre o Missionário [Walter Huston] e a prostituta [Joan Crawford]. Rain de 1931 é um filme pesado e perturbador. Joan Crawford está magnifica como a mulher da vida Sadie Thompson, vivendo num hotel em Pago Pago, um lugar onde só chove, tentando reconstruir sua vida depois de ter se envolvido em confusão da pesada em San Francisco. No mesmo hotel se hospeda um grupo de missionários liderado pelo fanático Mr. Davidson [Huston]. O enlouquecido missionário fica obcecado em converter a prostituta e fazê-la voltar à San Francisco e pagar pelos seus crimes—mesmo ela sendo inocente. Mr. Davidson não dá trégua e à medida que ele vai dobrando a prostituta, o filme vai ficando cada vez mais difícil de suportar, vai dando uma raiva, uma angústia, até o final aliviante, que não vou contar aqui. Precisei ver o filme duas vezes, para prestar atenção em todos os detalhes, todos os diálogos e rever as cenas finais, pra poder dar um suspiro de reconforto, pois nem tudo estava perdido. Somente um filme anterior à imposição do código, poderia dar um final decente à história. Houve uma versão de 1927 com a Gloria Swanson e outra de 1946 com a Rita Hayworth, que eu comecei a ver e me desinteressei. Talvez deva reconsiderar e ver novamente, nem que seja só pra conferir se a conclusão da história foi a mesma, ou se moralizaram ao inverso.

Texto de Fer Guimaraes Rosa. | Linkar | Comentar (2)
maio 01, 2008
Cinema Reserve "enlatado"
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Para colecionadores de DVD não tem nada melhor do que saber que um dos seus filmes mais apreciados e cultuados foi relançado em edição especial, dupla, com extras e um folheto incluso além, é claro, do filme ter sido restaurado (som e imagem). A última vez que fiquei "embasbacado" com uma edição especial foi com o DVD de My Own Private Idaho da Criterion Collection que eu comentei aqui.

Agora foi interessante o fato de eu ter "encontrado" dois lançamentos em sites diferentes, tê-los comprado e já estar com ambos em mãos para uma comparação. Um, no site da 2001 Video (que, by the way, é o MELHOR lugar para se comprar DVDs aqui no Brasil - corretíssimos, super atenciosos, especializados, com preços ótimos e muito eficientes - sou só elogios), foi a "pérola" Lifeboat do mestre dos mestres Alfred Hitchcock, de 1944, um dos poucos filmes com a grande Tallulah Bankhead. Edição especial da Twentieth Century Fox Cinema Reserve. DVD duplo, com making of, comentários de críticos e encarte com fotos e informações sobre o filme e a produção. Imagem e som excelentes. A caixa é Amaray, aquela de plástico, como a maioria das caixas de DVD aqui no Brasil e tem um envólucro de papel mais grosso, plastificado, que dá um toque especial ao produto.

A outra compra que eu fiz foi da mesma coleção Cinema Reserve da Fox. O relançamento em questão é a obra prima de Joseph L. Mankiewicz, de 1950, All About Eve. Nos extras há um documentário de 25 minutos sobre as filmagens e embora tudo e todos neste filme sejam super elogiados, eles falam algo que é notório do público até hoje: "All About Eve é o que é PRINCIPALMENTE graças a Bette Davis." E eu, é claro, concordo 100%. ;^)

Essa segunda compra eu fiz no site da Amazon, na Inglaterra. Fiquei surpreso ao descobrir, "fuçando" lá, que os preços eram MELHORES que os da Amazon nos Estados Unidos (taxas de entrega bem mais baratas e a entrega em si é mais rápida) e, pasmem, melhores que os preços no Brasil. E isso após converter os valores para a nossa moeda, claro. Outro "detalhe" importante para mim é que a embalagem dessa edição de All About Eve é de metal e SUPER bonita e elegante! Isso dá ao DVD um toque especial e um prazer diferenciado. Mais ou menos como ler um livro de capa dura, papel couché etc e um livrinho de bolso qualquer em papel jornal. Não é diferente?

Outro detalhe sobre a compra na Amazon é que eu fiquei receoso de ter que pagar taxa de importação e ter os produtos retidos pela PF (comprei um CD triplo da Nina Simone também, que é a "musa" do momento nos meus ouvidos). Felizmente, com apenas dois dias de atraso e totalizando 10 dias corridos entre a data da compra e a entrega, o pacote chegou às minhas mãos pelo correio, sem estresse algum. Bom, né?

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Falando em "coincidências", assim como eu comprei "sem planejar" dois lançamentos dessa coleção "Cinema Reserve", a estrela de "Lifeboat" (Tallulah Bankhead) foi alvo de especulação na época do lançamento de "All About Eve" como tendo sido fonte de inspiração para a outra estrela (Bette Davis) compor sua personagem, a famosa e incomparável Margo Channing. Davis negou que tivesse se inspirado em Bankhead, mas as comparações são inevitáveis pois há realmente um ar de Tallulah em Margo. E ver os dois filmes em seqüência, com isso em mente, embora sejam dois filmes COMPLETAMENTE diferentes, é uma delícia só.


Texto de Moacir Moreira Gomes | Linkar | Comentar (1)
abril 20, 2008
Quando a trilha sonora é melhor que o filme

Eu quase não falo sobre música aqui no Cinefilia. Invariavelmente falo sobre os atores, diretores e roteiros que me cativam, fascinam e assombram pela vida a dentro. Entretanto eu falhei por não ter escrito ainda sobre o quão importante as trilhas sonoras são para mim. Me toquei disso outro dia quando fui ver My Blueberry Nights e saí do cinema pensando, "Que trilha sonora adorável!"

Não gostei tanto do filme quanto da trilha sonora, cujas músicas tenho ouvido todos os dias desde então (ah, as maravilhas que a internet nos proporciona... downloads em uma única madrugada e o CD inteiro nas suas mãos e ouvidos...). Passando por Norah Jones (não por acaso a "estrela" do filme, embora eu prefire o magnífico Jude Law), Otis Redding, Cat Power entre outros e o sempre indispensável Ry Cooder que eu adoro desde que o Win Wenders me "apresentou" a ele em Paris, Texas e que é o maestro por trás de Buena Vista Social Club, também de Wim Wenders.

Esse filme tem uma única imagem que talvez eu não esqueça e que pode entrar para a lista das mais belas cenas de beijo de todos os tempos (assim como o beijo de Sean Connery e Tippi Hedren em Marnie). Ela (Norah Jones) adormece sobre o balcão, após se lambuzar com uma torta de blueberry e sorvete. Ele (Jude Law) se debruça sobre o balcão, pelo lado oposto, e, lentamente, aproxima sua boca e lambe o sorvete dos lábios dela enquanto a câmera sobe e nós os vemos de cima. Eles se beijam em close. Corte. O sorvete e a torta de blueberry se misturam em um close que preenche a tela inteira. Delícia...

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Ontem re-vi o belo Before Sunrise em sessão dupla com Before Sunset. Fora todo o romantismo da história e do belo projeto de reencontro de personagens, diretor e atores/roteiristas, quase 10 anos depois do primeiro filme, a cena que me marca mais tem a magia de Nina Simone como coadjuvante, quase como uma fada madrinha, e encerra o segundo filme brilhantemente.

Ethan Hawke coloca Just in Time para tocar enquanto Julie Delpy faz um chá. Ela começa a contar o quanto adora essa música e o fato de ter assistido a algumas apresentações de Nina Simone. Ela começa a dançar, imitando Nina e contando como ela agia nos shows. Ele, sentado no sofá, olha para ela de forma apaixonada. O ângulo o favorece e esta é a cena em que ele está mais belo em todo o filme. Ela se entrega à música e ao momento e relaxa. Ele tem um vôo para pegar, mas não está apressado. Sorri, displicentemente e quando ela diz que ele vai perder o vôo ele responde que certamente o perderá. Fade out. A voz de Nina sobe e os créditos correm. Dá pra ter final mais perfeito que esse?

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Texto de Moacir Moreira Gomes | Linkar | Comentar (4)
abril 02, 2008
ha ha ha ha!

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so very true....

Texto de Fer Guimaraes Rosa. | Linkar | Comentar (4)
abril 01, 2008
francês bebe vinho
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Divertida cena do fabuloso filme Jules et Jim dirigido por François Truffaut em 1962, onde o trio de amigos-amantes Jules, Jim e Catharine estão sentados na sala de Jules e Catharine na Austria. Jim está apenas visitando, mas em breve vai estar também morando na casa, a pedido da pá-virada Catherine [Jeanne Moreau]. Jules [Oskar Werner] oferece cerveja alemã à Jim [Henri Serre] e isso enfurece Catherine, que se põe a listar como uma matraca os maravilhosos vinhos da França.

[Jules] Jim, it's time you learned enjoy German beer.

[Catherine] Jim's French like me. He doesn't give a damn.

[Jim] Not true!

[Catherine] France has the widest variety of wines in Europe. ln the world! Bordeaux like Chateau Laffitte, Chateau Margaux, Chateau Yquem, Chateau Frontenac, St-Emilion, St-Julien, Entre- -Mers, and l'm forgetting some of the best. Clos Vougeot, the Burgundies, Romanee, Chambertin, Beaune, Pommard, Chablis, Montrachet, Volnay, Beaujolais, Pouilly-Fuisse, Pouilly-Loche, Moulin, Vent, Fleurie, Morgon, Brouilly, St-Amour...

Texto de Fer Guimaraes Rosa. | Linkar | Comentar (1)
março 24, 2008
Jane Campion & The Portrait of a Lady

A grande frustração da minha vida será não fazer cinema. O que eu mais gostaria de fazer na vida é dirigir um filme. Não tenho mais dúvidas disso. Todas as vezes que tenho a oportunidade de ver um diretor em ação, nos documentários e making of's dos filmes, me pego emocionado, vibrando, sentindo cada um daqueles mágicos momentos como se eu estivesse lá. Assim foi com Claude Lelouch em Um Homem e Uma Mulher, com qualquer Hitchcock ou Bertolucci. Foi também com Bryan Singer e seu Superman Returns e tantos outros documentários que vi nos extras dos DVDs.

Agora vi um documentário de 53 minutos sobre a diretora Jane Campion e a adaptação do romance The Portrait of a Lady, de Henry James. Como a própria Jane diz para Nicole Kidman quando elas se despedem após o fim das filmagens (que duraram aproximadamente 4 meses), "os sentimentos são tantos e tão profundos que fica difícil descrevê-los". Parece letra de música do Roberto Carlos, mas é isso mesmo.

Ainda não li o romance de Henry James, mas o farei em breve. Entretanto tenho experiência e sensibilidade suficientes para perceber uma boa adaptação, um esmero artístico, escolhas específicas de um diretor que sabe deixar sua marca. Vi outros filmes de Jane Campion e vi em The Portrait of a Lady diversos sinais que são como assinaturas de um artista. Enquadramentos, paleta de cores, movimentos de câmera, slow motion e fast motion, imagens focadas e desfocadas, granulados, seqüências em preto e branco, uma abertura contemporânea num filme de época.

Durante uma boa parte do filme eu não conseguia parar de fazer comparações com Dangerous Liaisons. Talvez pela presença de John Malkovich no elenco, pois ele sempre me faz pensar naquele odioso e trágico personagem. Mas também por coincidências óbvias no enredo: Uma mulher jovem e inexperiente (Michelle Pfeiffer x Nicole Kidman) é arrastada, sem se dar conta, para um relacionamento com um homem frio e calculista, embora estranhamente sedutor (John Malkovich em ambos os casos), por uma mulher ambiciosa e manipuladora (Glenn Close x Barbara Hershey). Há uma outra jovenzinha virginal e inocente (Uma Thurman x Valentina Cervi) que não pode viver seu romance com o jovem que a ama (Keanu Reeves x Christian Bale).

Mas o filme de Jane Campion tem seus méritos próprios e o romance de Henry James tem força suficiente para se destacar e se sobressair a ponto de me fazer esquecer as comparações com o filme de Stephen Frears, apesar do John Malkovich (ator que não me agrada muito pois acho que é um daqueles que faz sempre o mesmo papel: ele mesmo).

Outro ponto forte do filme, por incrível que pareça, é a presença de Nicole Kidman, numa época pré-Oscar, pré-botox, pré-fake. Sua Isabel Archer é um poço de emoções e força, apesar da aparente fragilidade.

Ao terminar de ver o filme e o documentário, descubro que a minha “cara metade” está às gargalhadas no quarto, vendo Pânico na TV, com os repórteres Vesgo e Sílvio, correndo atrás do carro da Britney Spears em Los Angeles. Escovo os dentes e me deito para dormir. Sem comentários... Boa noite.

Texto de Moacir Moreira Gomes | Linkar | Comentar (4)
março 23, 2008
101 Dálmatas
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Walt Disney já produzia filmes de animação em longa metragem desde 1937, quando fez Branca de Neve e os Sete Anões. Todos seus longas de animação costumavam ser extremamente românticos e coloridos, com cenários delicados e vibrantes. Os desenhos "básicos" eram feitos pelos artistas "principais", digamos assim, e depois os traços eram copiados e "limpados" por outros artistas "secundários" (por falta de termo melhor) que pintavam nos acetatos (transparências) e esses eram sobrepostos aos desenhos dos cenários para fotografar cada quadro e fazer as animações. Walt supervisionava tudo e tudo era feito à mão por dezenas e dezenas de artistas.

Se analisarmos os aspectos visuais e também a quantidade de elementos fantásticos nas histórias dessas animações (Pinocchio, 1940; Fantasia, 1940; Dumbo, 1941; Bambi, 1942; Cinderella, 1950; Alice no País das Maravilhas, 1951; Peter Pan, 1953; A Dama e o Vagabundo, 1955 e A Bela Adormecida, 1959) veremos que 101 Dálmatas, lançado em 1961, é o primeiro desenho de longa metragem de Disney em que não há aspectos fantásticos. Apesar dos animais "falarem", eles se comunicam apenas entre si e latem para os humanos mas não falam com eles. É uma história bem mais realista onde os humanos se comportam como humanos e os animais como animais.

Das cores românticas e traços delicados dos desenhos anteriores temos em 101 Dálmatas um visual bem moderno, em tons pastéis e desenhos típicos das décadas de 50 e 60, lembrando um pouco uma mistura do look de Mary Poppins e os cartoons de Jules Feiffer (que eu ADORO) ou anúncios publicitários daquelas décadas. Se bem que Poppins veio alguns anos depois e Feiffer começou a fazer sucesso naquela época o que me faz pensar que talvez seja o contrário e os Dálmatas influenciaram os outros. Mas também é o fato da história se passar em Londres que me faz pensar em Mary Poppins. O importante é que o visual é realmente diferente dos clássicos desenhos da Disney até então e marcou uma mudança também na técnica aplicada.

Se até então os desenhos eram copiados manualmente nos acetatos, em 101 Dálmatas os artistas começaram usar uma nova e moderníssima copiadora Xerox que reproduzia os desenhos para o acetato, sem necessidade dos artistas que eu chamei aqui de "secundários". Os traços são exatamente os originais dos criadores de cada personagem e isso dá ao filme uma dimensão mais realista e "crua" do que vemos nos outros clássicos.

Além desses aspectos técnicos, do estilo dos desenhos e da ausência de elementos fantásticos e, portanto, da atmosfera mais realista, 101 Dálmatas entrou para a história e ficou popular por duas outras razões. A primeira é que os dálmatas são extremamente fofos e ninguém consegue resistir ao encanto de tantos filhotes para tudo quanto é canto da tela. Mesmo os mais durões se envolvem e se emocionam com os acontecimentos. A autora da história original, Dodie Smith, era dona de alguns dálmatas e teve a idéia de escrever essa história baseada em sua experiência com os filhotes e por causa de um comentário de uma amiga que disse que seria lindo ter um casaco de peles feito com aqueles bichinhos. O que nos leva para a segunda e, talvez, maior razão para o sucesso de 101 Dálmatas: Cruella De Vil é a vilã mais famosa e popular de todos os desenhos da Disney. Ela figura também na lista dos 100 maiores vilões do cinema do American Film Institute. Sua figura esquelética, seus gestos grandiosos e exagerados, sua obsessão pelos casacos de pele e sua gargalhada extravagante a faz realmente inesquecível. Li em alguns lugares que ela teria sido inspirada em Tallulah Bankhead, mas vendo os extras no DVD descobri que a Disney contratou Mary Wickes para dar vida à personagem e posar para os desenhistas. Mas muito do mérito é da própria autora que imaginou uma versão extremada da sua amiga que gostaria de ter um casaco com a pele dos filhotes de dálmata e do desenhista Marc Davis que foi o único responsável pelos desenhos de Cruella, enquanto que um time de diversos artistas se revesaram desenhando os outros personagens.

Visto hoje em dia 101 Dálmatas tem a cara de um desenho clássico, chique, bonito e sofisticado. Para amantes de cachorros é irresistível. Para quem gosta de uma boa vilã é obrigatório!

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Texto de Moacir Moreira Gomes | Linkar | Comentar (0)
março 20, 2008
smoke gets in your eyes

Todo mundo que passa por aqui deve saber que eu tenho uma obsessãozinha por filmes antigos. Aliás, filmes antigos é quase só o que eu assisto. Tenho preferência pelos da década de 30, mas assisto de tudo, gosto de observar os micro-detalhes, além de curtir a história, os atores e tal. Uma coisa super notável nos filmes de 34 pra frente, quando se reenforçou o código para os filmes de Hollywood e acabou com o bacanal de mulheres semi-nuas, sexo, violência e all that jazz, é a presença constante do cigarro. Bom, não se podia fazer mais absolutamente nada, as mulheres tinham que se vestir com casaquetes fechados até o pescoço, os casais não podiam dormir na mesma cama e beijar só de lábios bem selados, então o jeito era fumar, e fumar muito!

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Três objetos que hoje estão praticamente em desuso, eram necessidade básica naqueles tempos—o isqueiro, coisa fina para os ricos, os pobres usavam aquela outra coisa que se riscava na sola do sapato pra acender o cigarro; a cigarreira, também outra coisa fina, geralmente presente do amante com iniciais encravadas, os pobres tiravam aquele maço de papel amassado do bolso do paletó surrado; e o cinzeiro, que ficavam espalhados pela casa e eram tão populares que eram vendidos desde em lojas como Tiffany até nas biroscas de turistas em Niagara Falls—e que deve ser hoje o único lugar onde pode-se ainda achar um deles.

A atriz com luvas brancas, chapéu com peninhas e redinha e um terninho incrívelmente sufocante, já entra em cena segurando um cigarro. E era um cigarro sem filtro, porque ela tira um naco de fumo da língua, como eu via algumas pessoas que fumavam Minister sem filtro lá na minha pré-história na década de sessenta, fazer. Eram pessoas mais pobres, que não podiam comprar o fino Hollywood com filtro. Presumo que na decada de quarenta todos os cigarros eram sem filtro. Até a Bette Davis tirava naco de fumo da língua, porém com luvas e com muito charme.

Cigarros eram tão parte de tudo, que ninguém se importava com ele, Fumava-se comendo, beijando, dentro do elevador, nas festas de criança, no banheiro, durante brigas, fazendo sexo em camas separadas, é claro. Cigarro não incomodava, muito pelo contrário, quando alguém entrava em cena, oferecia-se um cigarro, como hoje se oferece um vinho do porto, um copo de água, um cafézinho passado na hora, um chiclete de menta. Chegava a vamp de chapéu e o pitéu de casaco com corte perfeito de alfaiate abria a cigarreira de prata e oferecia um cigarro. Ou havia uma caixa de cigarros na mesa de centro e o casal dividia as baforadas, ou ele acendia os dois cigarros e passava um pra ela. A primeira coisa que se fazia, antes de tudo, até do café da manhã, era fumar. Os filmes antigos têm aquela tênue névoa pairando no ar em todas as cenas. Era o fumacê discreto do sempre presente cigarro.

Hollywood já não é a mesma, principalmente porque hoje na Califórnia não se pode fumar em praticamente nenhum lugar público. Mesmo do lado de fora, há regras. Em alguns lugares, por exemplo, pra poder dar umas baforadas no cigarrinho, o fumante marginalizado tem que estar a pelo menos seis metros de qualquer janela ou porta de qualquer prédio. Eles ficam lá sozinhos, fumando no ostracismo, os passantes desviando, como se o fumacê tivesse bactérias nauseabundas ou vírus contagiantes. Acabou o glamour, hoje quem fuma não é mais Bette Davis.

* eu não fumo, nunca fumei.

Texto de Fer Guimaraes Rosa. | Linkar | Comentar (3)
março 15, 2008
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
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Um dia você vai a uma festa e conhece alguém. Em poucos minutos você se descobre encantado por esse alguém. Em pouco tempo você está casado com esse alguém, morando junto, dividindo sua vida e se sentindo a pessoa mais feliz do mundo. Seus beijos são os mais doces, seus olhares se encontram no mais profundo de suas pupilas e você se descobre lá dentro do olhar do outro. O toque de seus corpos provoca frissons incontáveis e a noção exata de que você, finalmente, está SATISFEITO. Pronto. Acabou.

Mas a vida continua. Os dias se passam e você começa a perceber que nem tudo são flores. O tédio, a mesmice, a repetição, pequenas traições, uma pasta de dente apertada no lugar errado, um chopp com alguém totalmente acima de suspeitas, mas que te deixa corroído de ciúmes. Um outro alguém que cruza seu caminho e te faz desejar que sua vida fosse diferente. Você é livre, você pode recomeçar, sentir o frisson novamente, o frescor da novidade, das descobertas. Seus olhos brilham e você deseja secretamente criar uma lacuna na sua mente.

Eu não conheço você. Eu não sei quem você é. Eu não tenho compromisso nenhum contigo e não devo explicações ou satisfações. Você não é minha responsabilidade. Eu apaguei você da minha mente.

Um dia você percebe, como que por um passe de mágica, que aquilo que você mais quer, mais precisa e mais te faz feliz, é justamente aquilo do qual você tenta se livrar. E você precisa então se esforçar para que a lacuna seja novamente preenchida. Você se concentra em todos os momentos preciosos e da mais pura felicidade que viveu e descobre que

é você que eu quero. É você que eu amo e que me faz feliz. Mesmo que eu me entedie, mesmo que você me irrite em alguns tantos momentos, eu sei e sinto que nunca serei tão feliz ou tão completo ao lado de outra pessoa. É ao seu lado que eu quero acordar para o resto dos meus dias. É a sua boca que eu quero beijar e o seu calor que eu quero sentir. Quero cuidar de você e receber sua atenção e seu amor. Eu sei que vamos brigar. Sei que vamos nos irritar e virar o rosto para outro lado, pensando que de outra forma poderia ser melhor. Mas sei também que mais ninguém me fará tão feliz, pois é você que eu amo.


Inspirado, chupado, colado, sentido e vivido do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças escrito por Charles Kaufman. A melhor prova de que o cinema pode ser artístico, lírico, bonito e também catártico, terapêutico e completamente arrebatador.

*Texto originalmente publicado em 22 de abril de 2005, em outro endereço, mas que continua atualíssimo. Não precisei mudar uma única vírgula.

Texto de Moacir Moreira Gomes | Linkar | Comentar (2)
março 03, 2008
The art of dunking
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"dunking is an art, don't let it soak too long. a dip and sock, into your mouth. if you let it too long it become soggy and falls apart. it's a matter of timing. i'll write a book about that. 20 millions and you don't know how to dunk!"

It Happened One Night, é um filme fofésimo, dirigido pelo Frank Capra em 1934. Eu já revi esse filme tantas mil vezes que já sei até alguns diálogos decor. O filme foi feito sem nenhuma ambição e acabou sendo uma surpresa no box office e abocanhando um monte de Oscars. É um road movie onde os personagens estão tentando se locomover do ponto A para o ponto B e na duração desse trajeto toda a trama de desenvolve. Em It Happened One Night, uma ricaça mimada [Claudette Colbert] está fugindo do pai, tentando chegar em NY para se casar com um canastrão. Seu companheiro de banco no ônibus é um jornalista desempregado [Clark Gable], que vai ajudá-la a chegar ao destino, na esperança de vender a história para o jornal. Nem preciso dizer o que vai acontecer. né? Bom, nos anos 30 o povão viajava de trem e ônibus e neste filme o meio de transporte é o busunga. Como eles estão atravessando o país, a viagem é longa e cheia de paradas. Numa delas, os passageiros têm a oportunidade de dormir num motelzinho e é o que Colbert e Gable fazem, tomando o cuidado de dividir o quarto com as muralhas de Jericó—um cordão com um lençol pendurado, afinal de contas eles não eram casados!

Na cena do motel, Gable acorda antes e prepara o café da manhã, que consiste de café preto, um ovo e um donut para cada um. Enquanto tomam café e conversam, Colbert enfia o donut no café e Gable faz uma cara de horrorizado! Você não sabe mergulhar o donut no café? Tem que fazer em movimentos rápidos, mergulhar e colocar na boca, se deixar muito tempo no café ele fica muito molhado e se desmancha. 20 milhões de dólares e não sabe molhar um donut! Ela aprende a lição rapidamente e molha o donut da maneira que ele ensinou. Uma cena pra se guardar na memória e aprender, afinal mergulhar o donut no café é uma arte!

Texto de Fer Guimaraes Rosa. | Linkar | Comentar (5)
março 01, 2008
Casablanca
"Here's looking at you, kid."
"Of all the gin joints, in all the towns, in all the world, she walks into mine."
"Kiss me. Kiss me as if it were the last time."
"We'll always have Paris."
"Round up the usual suspects."
"This is the beginning of a beautiful friendship."

Todas as falas acima são do mesmo filme. E se você não sabe que filme é esse, também não sabe o que está perdendo. Eu tinha "visto" Casablanca (1943) uma vez, na televisão, dublado, altas horas da noite, há muuuuuitos anos atrás. Conclusão: eu não tinha visto Casablanca ainda. Comprei o DVD duplo, com inúmeros extras e comentários, há meses atrás e tinha visto apenas um documentário sobre Humphrey Bogart apresentado por sua eterna esposa Lauren Bacall, mas não tinha visto o filme ainda, até ontem à tarde.

Ao longo do filme, fui reconhecendo inúmeras falas, rindo com as tiradas geniais da personagem Rick, na pele de Bogart, dono do café mais freqüentado de Casablanca. Naquela época de guerra, Casablanca era um "paraíso" onde alemães, franceses, ingleses e americanos se encontravam e, como era um território "não ocupado" da França, os alemães não podiam prender os refugiados. Eles iam para Casablanca à espera de um avião que os levariam até Lisboa e, de lá, para a badalada terra prometida: América. Enquanto não conseguiam os vistos, ficavam por lá, à espera de algum milagre ou suborno para a polícia local, que os libertariam. Rick's Café Américain é "o point" e tudo acontece por lá. O chefe de polícia, o magnífico Claude Rain, joga, aceita suborno, encobre trapaças e crimes, ajuda os alemães quando lhe é conveniente e tem uma "quedinha" por Rick, que diz ser a pessoa mais sem escrúpulos que ele conhece depois dele mesmo. Rick vive meio "sedado", sem dar bola pra muita coisa além de si próprio até que uma "aparição", vinda de seu passado, o tira da zona de conforto. Ilsa, Ingrid Bergman bela e intrigante, chega com seu marido, Paul Henreid, ativo e importante participante da resistência contra os nazistas, e o resto da história tem que ser visto para ser curtido a cada deliciosa cena.

Casablanca é considerado um dos maiores romances do cinema e, de fato, o grande romance dura apenas alguns dias, quando o casal Bogart e Bergman, se conhecem em Paris. Quando o filme começa, eles não se vêem há alguns anos e o reencontro é quando Bogart descobre que Bergman já era casada quando eles se conheceram. O "grande romance", na verdade, é uma história de amor impossível, quase platônica, pois a mulher não está disponível e o homem acaba se escondendo atrás dessa paixão que o abandonou e nunca mais teve um relacionamento com outra mulher. O próprio chefe da polícia diz a certa altura, "eu nunca te vejo com mulher alguma". Esse mesmo chefe de polícia é tão corrupto que chega a dormir com uma jovem recém casada, em troca de dar a ela e ao marido um visto para sairem de Casablanca. Há uma leve insinuação de que ele tenha dormido com a mulher e seu marido. E, no fim do filme, Bogart decide por Bergman que ela deve ir embora com o marido e deixá-lo. Eles terão Paris em suas memórias, mas viverão separados. Com quem ele fica? Com o chefe de polícia, que diz que eles irão para um lugar seguro, fugindo dos nazistas que estão atrás deles agora. "Este é o início de uma bela amizade", é a frase final do filme.

O subtexto gay de Casablanca não é óbvio, claro. Tem gente que acha isso absurdo, mas essa idéia não é minha. Essa discussão já existe há tempos, mas como eu só vi o filme ontem, não pude deixar de enxergar todos esses "ângulos". Talvez tudo isso seja uma grande coincidência e um indício de quantas interpretações uma obra de arte pode ter. Certamente Michael Curtiz, o diretor do filme, Jack Warner, o chefão da Warner Bros., e Bogart nunca pensaram nisso. Agora preciso rever o filme, ouvindo os comentários do crítico Roger Ebert para saber se ele menciona algo sobre o assunto.

Em todo caso, mesmo sendo interpretado da forma mais tradicional, Casablanca é um filme apaixonante e que a gente pode ver várias vezes. Cult dos mais clássicos, daqueles que a gente assiste falando os diálogos junto com os personagens.

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Texto de Moacir Moreira Gomes | Linkar | Comentar (1)
fevereiro 24, 2008
Aperitivos Visuais

Quando concluí meu curso de graduação em Artes Visuais, há "alguns" anos atrás, meu foco de estudo foi, como era de se esperar, o cinema. Ao investigar a presença da comunicação visual em filmes, tracei um paralelo entre a capa de um livro ou o pôster de divulgação de um filme, com os créditos iniciais dos filmes. Assim como a capa e o pôster, quando bem feitos, a gente pode ter uma idéia, uma impressão ou noção, do que se trata aquela obra. No caso dos créditos a mesma coisa acontece.

E eu adoro analisar essas aberturas, descobrir o máximo possível sobre o que será a história e já me preparar para o que está por vir. É claro que tem filmes em que nada disso acontece, pois aparece uma tela preta com letras brancas e só. Os créditos nos filmes do Woody Allen, por exemplo, são todos assim.

Alguns filmes apresentam créditos misturados com as cenas iniciais onde a história ganha uma força imediata. A ação em si nos atrai mais a atenção do que os nomes na tela, como é o caso de Touch of Evil de Orson Welles, com sua magnífica abertura de um longo plano seqüência.

Em outros casos a estrela (ator ou atriz) do filme é o grande foco da abertura e seu nome aparece geralmente ao lado de sua imagem, com grande destaque. Vários exemplos desse tipo podem ser lembrados como Rebel Without a Cause de Nicholas Ray, Breakfast at Tiffany's de Blake Edwards ou Sweet Bird of Youth de Richard Brooks. A presença dos astros James Dean, Audrey Hepburn, Paul Newman e Geraldine Page, respectivamente, é o grande destaque nos créditos desses filmes, como vemos no exemplo abaixo.

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As melhores aberturas, entretanto, a meu ver, são aquelas planejadas por comunicadores visuais, artistas gráficos como o MESTRE Saul Bass, preferido pelo outro mestre Alfred Hitchcock e por Martin Scorsese e Maurice Binder, criador da famosa abertura dos filmes de James Bond e tantos outros como Charade, de Stanley Donen, Repulsion, de Roman Polanski e um que eu gosto particularmente que é Plein Soleil, de René Clément.

Nesses casos o olho treinado descobre uma série de detalhes e "pistas" sobre a história e tem o prazer de degustar o que eu chamo de "aperitivos visuais", como uma epígrafe que ilustra e instiga a leitura de um texto.

No caso de Plein Soleil vemos uma animação na tela que se transforma em um nome, uma assinatura. Essa assinatura se transforma em outras assinaturas, até que passamos a ver cartões postais da cidade de Roma. O crédito final, dos produtores, é feito por uma mão que assina seus nomes em um cartão postal. A cena seguinte é Alain Delon e Maurice Ronet numa mesa de um café ao ar livre, em Roma, brincando de copiar assinaturas em cartões postais.

Assim como as assinaturas nos créditos se transformam em outras, a personagem de Delon se transformará na de Ronet com ajuda, claro, da sua habilidade em forjar assinaturas. Além de já sabermos disso, também temos a informação de que o filme será passado em locações turísticas e paradisíacas em Roma e outras localidades na Itália. Não é perfeito? Atenção também para as cores quentes que nos remetem a momentos calorosos, intensos e - como não pensar nisso? - sangüinolentos (embora não vejamos uma única gosta da sangue o filme inteiro).

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Two of my favorite ladies

Estava com saudades delas no Cinefilia:

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Audrey Hepburn

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Tippi Hedren

Texto de Moacir Moreira Gomes | Linkar | Comentar (1)



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