October 19, 2004

ninguém entende o que ele canta

Foi o meu presente de aniversário dado pelo meu filho. Antes de começar o show liguei pra ele - obrigada pelos tickets, estamos bem sentados. Eu e o meu guarda-costas!

Não vou poder dizer que este foi um show memorável, como o segundo show do Dylan que vimos, um mês após os ataques terroristas ou o terceiro, quando eu dancei na frente do palco. Mas foi um show bom. O problema foi basicamente o lugar, uma quadra de basquete no campus da UCDavis. Bem diferente de ver o Dylan no maravilhoso e cheio de história Memorial Auditorium, em Sacramento.

Mas ver o Dylan é sempre uma experiência fascinante, pois ninguém pode prever o que vai acontecer. Desta vez, a mesma banda que o acompanha há anos, comportou-se e vestiu-se da mesma maneira de sempre. Down-to-earth fellows, vestidos de terno cinza e camisa preta, chapéus de músicos de jazz, eles tocam e se colocam no palco como uma banda rockabilly. Eles são muito cool!

E Dylan, todo de preto com botas e chapéu de cowboy, passou o show inteirinho no canto esquerdo do palco tocando um pianinho e cantando curvado. A set list foi muito estranha. Eu tive um pouco de dificuldade para sacar que música ele estava cantando. Até as manjadas It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding), Highway 61 Revisited e Don't Think Twice, It's All Right estavam difíceis de reconhecer.

O Senhor Urso, famoso por ficar reclamando e tentando me distrair em TODOS os shows do Dylan em que já fomos, levou uma patada injusta. Ele disse - não entendo o que ele canta.... E eu, já toda defensiva argumentei com cara de brava - pois é, no próximo show vou contratar um interprete pra ficar traduzindo tudo pra você: agora ele disse isso, agora ele disse aquilo.... Calei o Urso na lata, mas fiquei morrendo de culpa por ter sido tão ríspida. A verdade é que NINGUÉM entende mesmo o que o Dylan canta. Mas por quê? Será que é porque ele está de saco cheíssimo de cantar as mesmas baladas por mais de trinta anos? Na minha opinião de fã condescendente, acho que é porque ele canta como ele quer e pode. O que é fantástico para uns - ele reinventar suas músicas, é um horror para outros - ficar sem saber what the heck ele esta grunindo.

Mas ele cantou do jeitão dele, sem se mover muito e voltou para um encore que realmente arrasou, com a maravilhosamente manjada Like A Rolling Stone e All Along The Watchtower botando pra quebrar. No final, agarrou um ramalhete de rosas, ficou ali no palco meio cambaleando numa pose de agradecimento de teatro [ele também nunca parece natural interagindo com o público] e saiu apressadamente junto com a banda. Dylan, uma figura pequena, discreta, de chapéu e botas de cowboy, que não se presta a nenhum salamaleque.

Um grupo de meninas ao nosso lado se acabou de tanto dançar durante o show, o que me fez pensar que a música deste poeta nunca vai sair de moda e que Mr. Zimmerman is still ROCKING!

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Bob Dylan - The ARC - UCDavis - 18/10/04

set list :To Be Alone With You, Señor (Tales Of Yankee Power), Tweedle Dee & Tweedle Dum, Under The Red Sky, It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding), Moonlight, Cold Irons Bound, Just Like Tom Thumb's Blues, Man In The Long Black Coat, Highway 61 Revisited, Saving Grace, Honest With Me, Don't Think Twice, It's All Right, Summer Days
encore: Like A Rolling Stone, All Along The Watchtower

Fer Guimaraes Rosa - October 19, 2004 3:05 PM

Pode crer, Fer. Tem razão. :c) Quero a foto sim. Mesmo sem queixo, acho o Eric Clapton a coisa mais liiiiiiiiiinda. Hohoho.

Guto, eu fui boazinha com o Dylan, pois o critico do SacBee escreveu em letras redondas que o show nao foi otimo, como sao sempre os shoes do Dylan. Foi apenas bom. Li a critica e pensei 'o cara me copiou, leu meu pensamento!' pois ele escreveu exatamente o que eu escrevi [tirando a parte do Ursao, claro!]. bjus!

Maria, se nao fosse o Dylan, nao existiria Clapton.... :-)) Tenho uma foto deles juntos [com Neil Young], voce quer? :-)

Me falaram que o livro Smilla's eh melhor que o filme. Se voce ja leu, nao precisa ver. A nao ser que queira se deliciar com o guapissimo Gabriel Byrne! :-) beijao!

Fred, o problema com esses shows ai no Brasil eh que os promotores sao gananciosos e poe os caras num estadio e vendem 5689097432226789009075433 ingressos, dai voce ve o show pelo telao. Gosto da intimidade desses shows que vejo aqui. Pra voce ver o Dylan assim, tem que vir pra cah! :-) Beijaooo!

É, Fer... Acho que vou ter que parar de ler o seu blog, pelo menos até o Dylan vir fazer um show no Brasil... Que inveja!!!

E ele ainda abre com "To Be Alone with You", que eu amo!

Mas mês que vem tem Brian Wilson em SP, e vai ser lindo!

Fer, interessante seu post. Nunca fui fã do Bob Dylan (I'm more of an Eric Clapton-person myself) mas sempre gostei da "aura" dele como artista. E sim, você é uma ótima fã condescendente. O homem tem mais aura (e lindas letras) do que voz pra cantar. Mas também, o que importa é a aura - ou a alma. O resto é o resto, certo?

Respondendo ao seu comentário lá no Montanha: é uma loucura ver essas criancas andando de patins, snowboard e esqui aqui, que nem profissionais. O lance é que elas comecam a andar no gelo depois de terem comecado a andar (mesmo) e não têm medo de cair, o que as ajuda na hora de aprender, né? Sobre o filme, näo o vi não, mas li o livro. Achei interessantíssimo porque a Smiila vem da Groenlândia, que é colônia dinamarquesa. Os nativos da Groenlândia são mal vistos na sociedade dinamarquesa, que os discrimina um bocado. Mas uma coisa que eles sempre fizeram é manter sua cultura ligada à natureza - no caso gelada. O livro é um tanto quando obscuro, difícil. Quem sabe o filme não é melhor? Bom, sendo do Billie August, só pode ser coisa boa. Valeu pela dica.

Fer, que bonito esse depoimento de fã condescendente. E a resposta prô Sr. Urso, apesar de injusta, foi engraçada. Mas mesmo assim, foi memorável, afinal não é todo mundo que pode ver o Dylan, pela quarta vez e num show em uma quadra de basquete. Fico imaginando você lá curtindo. Like A Rolling Stone sempre é o que há.
beijos,